No dia 12 de Junho de 2010, teve início a 78ª edição desta mítica prova.
Assistiram cerca de 240.000 espectadores à partida dos 56 carros, distribuídos pelas categorias LMP1, LMP2, LMGT1 e LMGT2.
Pode de facto dizer-se que Le Mans é composta por 4 corridas diferentes, num mesmo trajecto e período de tempo.
As classes
LM P1
Esta é a classe topo, considerada o “recreio” dos fabricantes por permitir aos engenheiros muito espaço para a inovação, tão constante também nos prótotipos.
A organização, “Automobile Club de l'Ouest” (ACO), reconhece o sinal dos tempos actuais e encoraja os fabricantes a desenvolverem alternativas e conceitos “amigos” do ambiente.
O resultado mais recente foi o motor diesel que equipou o carro vencedor do ano passado, o Audi R10 TDi.
Este atinge os 339 km/h na longa recta Mulsanne, sendo também o mais rápido em pista.
Em 2º, a 8 voltas e idem com motor diesel, ficaria o Peugeot 908 conduzido por Pedro Lamy.
Os carros desta série, produzem entre os 600 e 700 hp, têm um peso mínimo de 900 Kg e aceleram dos 0 aos 100 mph em 3 s.
LM P2
Esta categoria agrega na sua maioria carros de privados, altamente sofisticados e construídos para Le Mans com o propósito de enfrentar os grandes fabricantes.
Apesar de produzirem menor potência, entre os 500 e 550 hp, são significativamente mais leves, com um peso mínimo na ordem dos 825 Kg, permitindo atingir velocidades perto dos 355 Km/h.
Alguns dos fabricantes presentes nesta edição: Radical, Lola, Zytek e Courage.
Uma vez que visualmente são idênticos à classe LM P1, para os diferenciar, estes transportam números vermelhos e os LM P2, números pretos.
LM GT1
Nas 2 classes restantes, de estilo completamente diferente, o GT1 (Grand Touring) é a classe principal.
Tem como base carros de estrada, altamente modificados e capazes de produzir entre 600 e 650 hp, atingindo velocidades até 315 Km/h, com um peso mínimo de 1,125 quilos, transportando 100 litros de gasolina.
A Aston Martin e a Chevrolet geralmente dominam nesta categoria.
LM GT2
Composta por carros de produção, modificados mas sem a tecnologia avançada das outras categorias, com um peso idêntico ao GT1, mas uma potência “apenas” entre os 450 e 500 hp, atingindo velocidades de 290 Km/h.
A batalha nesta classe centra-se entre a Ferrari e a Porsche.
Para diferenciar estas classes, à semelhança das anteriores, a GT1 usa números vermelhos e a GT2, pretos.
O circuito
(Clica em cima do mapa para aumentar o tamanho)
Pode ter mudado ao longo dos anos, desde o primeiro evento em 1923, mas os seus 13.629 Km’s continuam a representar um teste marcante para homem e máquina.
A maior parte do traçado é feito em estradas públicas, fechadas apenas para a corrida.
São cobertos cerca de 5.000 km durante as 24 horas, comparável à distância coberta durante uma temporada da Formula Um.
Uma volta é efectuada em cerca de 3m 30s que é considerado o tempo médio. Caso seja batido de forma regular, a ACO poderá alterar o regulamento técnico para reduzir a performance dos motores.
Em 2007 foram cumpridas 369 voltas e só por duas vezes foram cumpridas mais de 390 voltas (1988 e 1971).
O menor número de voltas foi obtido em 1924, na sua 2ª edição, com apenas 120 voltas, percorrendo-se então 2.077,34 km a uma estonteante média de 86.555 km/h.
A seguir à linha de partida, deparamos com uma curta recta que leva à curva Dunlop, com uma travagem forte dificultada pela falta de grip nesta zona.
A estrada curva ligeiramente à direita antes da esquerda apertada e direita mais rápida que compõem a Chicane Dunlop e nos conduz aos Esses, numa sequência que se exige perfeita.
Nova recta curta leva ao Tertre Rouge, este ano modificado e com um novo piso que tornou 2s mais rápida a passagem nesta direita.
Depois seguimos pela recta de Hunaudières, com 5 km de extensão, pontuada por 2 rápidas chicanes, Playstation e Michelin, a qual culmina no gancho de Mulsanne, uma lenta direita feita em 2ª ou mesmo 1ª.
O carro trava de 320 para 70 km/h antes de acelerar violentamente à saida do apex, atingindo novamente a velocidade máxima pela estrada, através das árvores de Indianapolis.
Um toque subtil no travão permite abordar a uma velocidade considerável a suave direita antes da forte travagem na esquerda seguinte, feita em 3ª.
A seguir aproxima-se Arnage, uma direita lenta em 1ª ou 2ª, com a saída para Buisson, antes de abordar uma dançante e famosa zona, as curvas Porsche, onde se chega a 312 km/h.
Aqui atingem velocidades bastante altas, dos 200 aos 260 km/h, enquanto bailam numa constante direita-esquerda-esquerda-direita-esquerda até à saída da curva Corvette.
Logo a seguir à saída apanha-se uma zona plana, com uma direita-esquerda feita em 5ª a caminho da chicane Ford, que na realidade é composta por duas chicanes esquerda-direita, em que a segunda é mais lenta, levando à recta da meta.
24 curiosidades sobre as 24 Horas de Le Mans
- A 1ª corrida foi feita em 1923 num percurso de 17.262 km, com o carro francês Chenard-Walcker de André Lagache e René Léonard a sair vitorioso. Esta dupla completou 128 voltas, contra as actuais 390, cobrindo a distância de 2.209,5 km contra os actuais 5.000!!!
- A primeira fatalidade ocorreu em 1925, apesar de não ter sido durante a corrida. Andre Guilbert morreu em estrada, a caminho do circuito, numa colisão com um camião.
- Luigi Chinetti venceu por 3 vezes, 2 como Italiano, em 1932 e 1934 e após a 2ª Grande Guerra, em 1949, já naturalizado Americano.
- Em 1950, pai e filho, Louis e Jean-Louis Rosier ganharam numa corrida que só durou 23 horas. Obtiveram a volta mais rápida com 4m 53s, percorreram 3.465,12 km em 256 voltas a uma velocidade média de 144,380 km/h.
- Pierre Levegh fez história em 1952, ao liderar durante 23 horas, sem troca de piloto. A vitória fugiu-lhe por abandono na última hora com uma falha de motor.
Isto levou à introdução da regra que obriga à troca de piloto após um máximo de 80 voltas de condução ininterrupta e ao máximo de 18 horas de condução total.
O mesmo Levegh esteve envolvido no maior acidente fatal em 1955. Ao bater na traseira de um Austin Healey na recta da meta, o seu Mercedes voo e partiu-se em pedaços. Levegh morreu instantaneamente e com ele cerca de 80 espectadores, atingidos pelos pedaços voadores e pelo fogo que se seguiu devido à ruptura do tanque de gasolina.
Após o acidente, a equipa Mercedes, incluindo Stirling Moss e Juan-Manuel Fangio abandonaram de imediato a corrida. Este episódio precipitaria a retirada da Mercedes por largos anos.
- A última das 21 fatalidades já ocorridas foi a 3 de Maio de 1977, quando o francês Sébastien Enjolras morreu nos treinos quando a traseira do seu WR LM97 Peugeot voo e ele perdeu o controlo do carro a alta velocidade. Fruto deste acidente, a WR retirar-se-ia de Le Mans até 2000 e os protótipos com carroçaria construída numa única peça seriam proibidos.
- A Grã-Bretanha é a nação melhor sucedida com 32 pilotos vencedores, seguida da França com 26 e a Alemanha com 14.
- Das 24 vitórias de fabricantes Alemães, 16 são pertença da Porsche.
- 1969 viu a última partida conhecida como “partida Le Mans”, com os carros alinhados em diagonal num dos lados da pista e os pilotos no lado oposto, correndo para estes após a bandeira Francesa ser baixada.
Isto aconteceu por razões de segurança, após o protesto do vencedor por 6 vezes, Jacky Ickx, ter optado por caminhar lentamente em vez de correr.
- Cenas da corrida de 1970 foram incluídas no já clássico filme 'Le Mans' com Steve McQueen.
- Outro actor de Hollywood e também excelente piloto, Paul Newman, terminou em segundo no ano de 1979, conduzindo um Porsche 935.
- O recorde de assistência foi atingido em 2007 com 250.000 espectadores, um ano após terem estado 235.000.
- O WM Secateva já chegou a atingir a incrível velocidade de 405 km/h na lendária recta de Hunaudieres antes da introdução em 1990 das duas chicanes, conduzido por Roger Dorchy que partiu o motor logo a seguir por sobreaquecimento do Peugeot ZNS4 3.0L Turbo V6 que equipava o protótipo.
Este feito foi conseguido numa manobra de publicidade louca, tendo os responsáveis pela equipa decidido tapar todas as entradas de ar para o motor, o que tornou o carro quase ingovernável e utilizar uns pneus Michelin com cerca de metade da largura habitual construidos para o efeito.
O protótipo, no fim das Hunaudieres, parecia que a qualquer momento se desintegrava e foi a muito custo que Dorchy conseguiu segurar o WM e não se despistar com consequências seguramente trágicas.
Conta quem viu, que Roger Dorchy estava ainda pálido como cal quando chegou às boxes.
Em condições normais, foi obtida a velocidade máxima logo no ano seguinte, em 1989, com 400 km/h atingidos por um Sauber Mercedes C9 durante os treinos e 389 km/h por um Jaguar XJR9 durante a corrida.
- O motor mais pequeno utilizado em Le Mans, foi um Simca com 3 cilindros e 546 cc.
- A Audi entrou na história em 2006, ao ser o primeiro fabricante com um motor diesel a vencer a prova.
O primeiro motor diesel surgiu em 2004, pela Taurus Sports Racing que competiu com um Lola B2K/10 com um motor Caterpillar 5.0L Turbo V10... durou apenas 35 voltas.
- Desde 1923, 13 formatos diferentes de circuito foram usados, com o mais longo de 17.262 km.
- Em 1979, apenas 7 dos 51 carros presentes à partida, conseguiram terminar a prova, naquela que é talvez uma das mais desgastantes e dramáticas corridas.
- O final mais “apertado” foi em 1966 quando os dois primeiros carros terminaram apenas a uma distância de 20 metros!
Na realidade, este final foi uma acção publicitária. A Shelby, que era a equipa oficial da Ford em Le Mans, ordenou que os 3 GT40 MKII que seguiam nos 3 primeiros lugares (o 1º e 2º na mesma volta e o 3º a 12 voltas) cortassem a linha da meta em fila indiana, literalmente para a fotografia.
A chegada mas à justa em competição, por assim dizer, foi em 1969 com a dupla Ickx/Olivier a vencer num Ford GT40 MKI a cerca de 120 metros de distância do Porsche 908 de Larrousse/Herrmann.
- Por oposição, a maior vantagem foi na 5ª edição, em 1927, em que o segundo classificado ficou a mais de uns impressionantes 350 kms do vencedor!
- Dane Tom Kristensen foi o vencedor melhor sucedido, ao acumular 7 vitórias, mais uma que Ickx. Woolf Barnato, sempre conduzindo um Bentley, venceu por 3 vezes consecutivas de 1928 a 1930. Curiosamente, Woolf apenas correu estas 3 vezes, fazendo assim dele o único piloto 100% vitorioso.
- Em 1971, o Porsche 917 de H. Marko e G. van Lennep estabeleceu a média mais alta em 222.293 Km/h.
- Apenas não se realizou em 1936, devido a uma greve francesa e de 1940 a 1948 devido à 2ª Grande Guerra.
- A primeira vitória da Ferrari foi em 1949 com o 146MM, conduzido pela dupla Lord Selsdon (GB) e pelo já naturalizado americano, Luigi Chinetti.
- Nunca uma mulher venceu ou terminou no pódio em Le Mans.
No entanto, a francesa Odette Siko ficou em 4º lugar em 1932 e que a recordista de participações, também francesa, Anny-Charlotte Verney (12 no total) ficou em 6º lugar da geral, mas em 2º na classe IMSA GTX num Porsche 935 K3, em 1981.
Informação adicional:
- Brochura oficial 2008 aqui