Charles Goodyear - Uma estranha obsessão

Charles Goodyear

No verão de 1834, um falido comerciante de Filadélfia, Charles Goodyear, chega à cidade que nunca dorme (New York) e entra nas instalações da Roxbury India Rubber Co, o primeiro fabricante de borracha Americano.

Mostra ao gerente uma válvula desenvolvida para incorporação nas bóias salva-vidas de borracha. O gerente abana a cabeça tristemente: Sabe, de momento, a empresa não está no mercado de válvulas. Nestes tempos difíceis, mantermos o negócio actual já é uma sorte.

Conduzindo Goodyear ao interior das instalações, mostra-lhe pilhas de borracha derretida ao tórrido calor que se faz sentir. Na fábrica, em Roxbury, Massachusetts, confidência o gerente, centenas de artigos em borracha derretida estão a ser devolvidos por clientes insatisfeitos. Na calada da noite, foram já enterrados numa cova, mais de $20.000 dólares de borracha mal cheirosa.

A febre da borracha do início de 1830 terminava tão repentinamente como começara.

Inicialmente todos queriam artigos feitos em borracha à prova d'água, proveniente das florestas brasileiras e as fábricas tinham trabalhado incansavelmente para satisfazer a procura. Então, gradualmente, todos tinham ficado fartos daquela coisa que no Inverno congelava como um osso e se tornava uma autêntica cola, no Verão. Nenhuma das jovens empresas de borracha sobreviveu e os investidores perderam milhões. Na América, todos concordavam numa coisa: o reino da borracha tinha acabado.

Goodyear, desapontado, meteu a válvula no bolso e olhou novamente a pilha de borracha derretida que tinha perante si. Experimentava uma sensação de curiosidade pelo mistério daquela substância elástica. Não existe outra substância inerte que excite tanto a mente como a borracha, diria muitos anos mais tarde.

De retorno a Filadélfia, acaba novamente preso devido ás dívidas acumuladas, naquela que não seria ainda a sua última visita à prisão. Pede então à esposa que lhe traga um pedaço de borracha. É aqui, na cela, que inicia as suas primeiras experiências, trabalhando com afinco hora após hora.

Charles Goodyear

Se a borracha era naturalmente adesiva, porque não juntar-lhe um pó seco para controlar a elasticidade? Talvez talco de magnésio? Fora da prisão continua as suas experiências com alguns resultados promissores.

Em 1836, consegue um contrato para fornecimento de sacos postais aos Correios dos USA. Mas o problema persistia, pois os sacos de borracha endureciam no Inverno e derretiam no Verão.

Fala então com um amigo de infância na possibilidade de fazerem em conjunto um investimento. Fabrica, na sua cozinha, vários sapatos de um composto de borracha com magnésio. Mas antes que sejam sequer vendidos chega o Verão e Charles observa, impotente, a transformação dos sapatos numa mistela fétida e pastosa. Os vizinhos queixam-se do cheiro nauseabundo e Charles vê-se obrigado a mudar de residência. Regressa assim a New York.

Um amigo cede-lhe um apartamento, num quarto andar, para laboratório. Um cunhado seu, preocupado com o bem-estar das crianças, adverte Charles de que o negócio da borracha está morto e que este se deve virar para outras áreas. Eu sou o homem que a ressuscitará! responde-lhe Goodyear.

Na altura, já mistura à borracha, não só o magnésio, como também cal viva, que depois ferve num processo de optimização, conseguindo um melhor produto final.

Impressionada com os resultados, a Câmara de Comércio de Nova Iorque, recompensa-o com uma medalha.

Zeppelin Goodyear

As peças que utilizava como amostras eram todas decoradas, sobretudo pintadas. Certo dia, como lhe faltava material para novas experiências, pega em algumas peças pintadas e aplica-lhes ácido nítrico para remover a tinta. A peça torna-se negra e pensando que a tinha inutilizado, deita-a fora.

Alguns dias mais tarde, lembra-se que a textura da peça negra se tinha alterado. Vasculhando no lixo, consegue reencontrá-la e confirma que a borracha é de melhor qualidade que todas as anteriores.

Com resultados visíveis, consegue o patrocínio de um homem de negócios nova-iorquino que investe na produção de borracha mas, o pânico financeiro de 1837 rapidamente aniquilam o financiador e os negócios. Devastado, Charles e a família acampam na fábrica abandonada de Staten Island, vivendo da pesca que apanha no cais do porto.

Vulcanização

Com o passar do tempo, nova oportunidade surge, desta feita em Boston. Os seus novos parceiros conseguem um contrato para 150 malas de viagem. Está tão convencido que finalmente conseguiu alcançar a fórmula correcta que deixa as malas num compartimento quente e vai de férias com a família durante um mês. Quando regressa, nem quer acreditar no que os seus olhos vêm: as malas são agora um conjunto derretido de borracha!

Após cinco anos de tentativas fúteis, Goodyear está no fundo do poço. Vive agora em Woburn, Massachusetts, onde por caridade as pessoas fornecem leite e batatas à família para que tenham algo com que se alimentar.

Não se deixa no entanto abater e finalmente chega o dia que vai mudar para sempre a história da borracha.

Aqui, como em todas as histórias de grandes feitos e grandes homens, a realidade mistura-se com a ficção, e tende-se a romancear os acontecimentos. Ninguém sabe ao certo como aconteceu e são várias as versões. Uns dizem que foi no seu laboratório, outros que foi numa loja de Woburn, onde teria ido com uma amostra da sua mais recente experiência e que acidentalmente, deixaria cair na chapa quente de um fogão.

Embaraçado pelo descuido, tenta retirá-la da chapa e verifica que ao invés de se encontrar derretida pelo imenso calor, a borracha parece agora da consistência da pele. Corre para o laboratório e com um conjunto de experiências adicionais comprova que o composto, sujeito a altas temperaturas, se modifica, mantendo a sua elasticidade mas não derretendo. Na altura, utilizava na composição uma nova substância, o enxofre. Está finalmente a um pequeno passo de produzir a borracha que ainda hoje conhecemos e utilizamos no nosso dia a dia.

Zeppelin Goodyear

Esta descoberta é frequentemente citada como um dos acontecimentos acidentais mais celebrados da história. Goodyear sempre negou a versão puramente acidental, mantendo que o incidente do fogão foi significativo apenas porque a mente estava preparada para tirar uma ilação. Isso significou, acrescentaria mais tarde, perseverança para alcançar os objectivos.

Não se pode discordar completamente, pois perseverança, coragem e até teimosia foram, para além dos ácidos nítricos, cal viva e enxofre, os ingredientes que o fizeram chegar ao tão almejado resultado final. Afinal a sorte, procura-se...

Paradoxalmente, o Inverno a seguir a esta descoberta, foi o mais negro de sempre da sua vida. Com graves problemas de saúde, principalmente a nível ósseo, é com muletas que progride e prossegue no apuramento e refinação da sua descoberta. Sabia claramente que o calor extremo era a solução. Mas em que quantidade e por quanto tempo? Com uma paciência infindável, tostou bifes de borracha um após o outro, variando subtilmente a temperatura e duração.

Penhorou o relógio, vendeu a mobília e até os pratos de loiça. Conta-se que em sua substituição, fez pratos de borracha, nos quais toda a família comia. Até que se acabou também a comida...

Patente Americana

Assim que chegou a Primavera, rumou a Boston para contactar com amigos que o pudessem ajudar. Não encontrou nenhum e acabou novamente preso por não pagar os $5 dólares do quarto do hotel e regressa a casa para encontrar o filho morto. Incapaz de pagar o funeral, enterra o filho num caixão de borracha no quintal da sua casa. Dos doze filhos que teve, seis morreram durante a infância.

Por fim consegue apurar que o calor sobre pressão, aplicado entre quatro a seis horas a uma temperatura de 132 graus Celcius, produzia os resultados pretendidos. Escreve ao seu cunhado em Nova Iorque (o mesmo que o tinha advertido sobre o bem-estar dos filhos) acerca da sua descoberta. Este, dono de uma fábrica de textéis, mostra-se interessado num dos argumentos de Charles: a possibilidade de fabricação de roupa com incorporação de borracha. A primeira produção a sair para o mercado incluía duas camisas para homens da moda... foi um sucesso.

Dispondo do lucros de produção da fábrica, que o podiam ter transformado num milionário, volta a investir nas suas experiências. Queria fazer tudo em borracha: notas, instrumentos musicais, bandeiras, joalharia, barcos... Tinha um retrato seu pintado em borracha, livros impressos em borracha, chapéus, casacos, gravatas...

Goodyear era efectivamente um visionário. A percepção da utilização da borracha em imensas aplicações no futuros, era a mostra do quanto acreditava nas capacidades do metal elástico, substituto da madeira, que podia ser moldado em infindáveis formas.

Charles Goodyear

Uma das muitas ideias que teve em 1850, é hoje realidade: muitos embaladores de comida envolvem os seus produtos em Pliofilm, um plástico derivado da borracha. Pinturas em borracha, material para carros, a base dos Overcrafts, barcos salva-vidas, pneus e até os fatos de mergulhador, são algumas das aplicações que já então preconizava.

Patentear as suas descobertas nunca foi uma preocupação. Stephen Moulton, o esquecido homem da indústria da borracha no Reino Unido, terá levado algumas amostras com ele. Uma dessas amostras foi parar às mãos de Thomas Hancock, também ele um pioneiro da indústria da borracha em Inglaterra, que já há mais de 20 anos tentava obter o mesmo resultado.

A história é controversa e não se sabe claramente como se passou, mas segundo alguns funcionários da sua fábrica, Hancock terá analisado quimicamente as amostras e conseguido perceber não só a sua composição, como ainda o processo a que se chamaria posteriormente vulcanização, por referência a Vulcano, Deus do Fogo.

Hancock apressar-se-ia a patentear a descoberta, a 21 de Novembro de 1843, oito semanas antes do infeliz Goodyear, que o tentaria fazer a 30 de Janeiro de 1844.

Hancock oferecer-lhe-ia metade dos lucros obtidos através da patente, mas Charles orgulhosamente recusaria.

Nas feiras mundiais de Londres e Paris, na década de 1850, Charles apresentou pavilhões inteiramente construídos em borracha, literalmente do chão ao tecto. Mas uma vez mais, não tinha dinheiro para pagar os seus gastos e acabou novamente preso durante 16 dias, numa prisão francesa, o seu hotel, como lhe chamava. Foi aí que recebeu do Imperador Napoleão III, a Medalha da Legião de Honra.

Charles Goodyear

Quando morreu, em 1860, tinha uma dívida de $200.000 dólares. Contudo, alguns royalties acumulados dariam conforto à sua família, que com ele tanto sofrera. O seu filho Charles Jr., herdou o génio inventivo do pai e faria uma pequena fortuna na indústria de maquinaria para sapatos.

A vida, escreveu, não deve ser medida exclusivamente por padrões de dólares e cêntimos. Não pretendo queixar-me que plantei e outros colheram os frutos. Um homem apenas tem motivos para lamentar quando semeia e ninguém colhe.

Informação adicional:
  • Nunca Goodyear ou a sua família estiveram ligados à fábrica que ostenta o nome em sua honra, a Goodyear Tire & Rubber Co.
  • Na borracha vulcanizada, os átomos de enxofre unem as fibras de borracha. A adição de 1 a 3% de enxofre torna-a dura e resistente a variações de temperatura, mantendo a elasticidade.
  • Milhões de pessoas mastigam diariamente borracha. A pastilha elástica (chewing gum) é feita a partir de borracha com a adição de açúcar e aromas. O seu modo de fabrico é muito aproximado ao de outros artigos em borracha.
  • Um pneu demora cerca de 600 anos para se decompor.